segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O que a Igreja diz sobre: Liberalismo e Libertarianismo


“Parecem porém ignorar ou não ter na devida conta os gravíssimos e funestos perigos deste socialismo, os que não tratam de lhe resistir forte e energicamente, como o pede a gravidade das circunstâncias. É dever do Nosso múnus pastoral chamar-lhes a atenção para a gravidade e eminência do perigo : lembrem-se todos, que deste socialismo educador foi pai o liberalismo, será herdeiro legítimo o bolchevismo.”
(Quadragesimo Anno, Pio XI)

Conheço muitos casos aqui no Brasil, inclusive até de amigos meus, que desiludidos com as propostas socialistas, vão buscar abrigo nas propostas dos liberais ou libertários. Mal sabem eles que estão pulando da frigideira e caindo no fogo.

Quando faço essa analogia, estou sendo sincero. O liberalismo foi o que deu origem ao socialismo. Foi ele que preparou o terreno para que a erva daninha do socialismo pudesse crescer e engolir quase tudo o que a sociedade cristã ocidental havia conquistado ao longo de tantos séculos. O socialismo é quase como que um efeito do liberalismo, assim como o calor da frigideira é efeito da ação do fogo nela. Muito assustados com o calor da frigideira, quem está dentro dela salta, mas sem precaução acaba caindo no fogo que a aquecia, ou seja, foi do ruim para o pior.

Quando se trata de política, sempre recomendo uma boa leitura na Doutrina Social da Igreja. É possível encontrar todos os principais documentos da DSI no site da Santa Sé, traduzidos para o português e totalmente de graça. Não há fonte de conhecimento mais fundamental do que os documentos do Sagrado Magistério da Igreja Católica para nós católicos. A Igreja ensina seus fiéis através das cartas, das encíclicas, dos documentos vários. Basta que a gente dedique alguns minutos do dia para escutar o que a Igreja tem a nos ensinar. Geralmente os documentos são pequenos, compostos por algumas dezenas de páginas. Seria preguiça de nossa parte não ler esses documentos.

As encíclicas Rerum Novarum, Quadragesimo Anno e Centesimus Annus são, em minha humilde opinião, uma boa forma de iniciar os estudos na área da Doutrina Social da Igreja. Há também o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, disponível também de forma gratuita e traduzido para o português no site da Santa Sé. Esses mesmos documentos também são fáceis de serem encontrados em formato de livros em quase qualquer livraria, ou até mesmo à venda pela internet.

“A encíclica refuta o liberalismo entendido como concorrência ilimitada das forças econômicas, mas reconfirma o direito à propriedade privada, evocando-lhe a sua função social. Em uma sociedade por reconstruir desde as bases econômicas, que se torna ela mesma e toda inteira «a questão» a enfrentar, «Pio XI sentiu o dever e a responsabilidade de promover um maior conhecimento, uma mais exata interpretação e uma urgente aplicação da lei moral reguladora das relações humanas... para superar o conflito de classes e estabelecer uma nova ordem social baseada na justiça e na caridade»”
(Compêndio da Doutrina Social da Igreja)

O trecho acima foi retirado do Compêndio da DSI, e fala a respeito do liberalismo, ideologia que está ganhando muito espaço em meio à juventude brasileira. O grande problema é que as pessoas enxergam uma dicotomia entre socialismo e capitalismo, como se essas fossem as duas únicas coisas que existem em termos de política e economia. Essa dicotomia leva as pessoas a escolher um dos lados e defendê-lo de forma inescrupulosa, assim como uma torcida organizada defende seu time de futebol.

A Igreja é a favor da propriedade privada, e isso fica bastante claro na encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII. Então, qual é o problema do liberalismo, afinal? Pois bem, o problema pode ser resumido dessa forma: o liberalismo enxerga a liberdade como um fim em si mesmo, e não como um meio. O que isso quer dizer? Quer dizer que a correta ordem de prioridade das coisas acaba sendo invertida. A liberdade toma um lugar que não lhe é devido, e então surgem diversos problemas que merecem ser considerados, principalmente os problemas de ordem moral. Na verdade, o grande problema do liberalismo é justamente a ordem moral.

Há coisas que são boas e coisas que são más, e disso todo mundo sabe. Esse senso moral do ser humano é o que o impede de cometer crimes para obter vantagens temporais, por exemplo. Uma forma rápida de se enriquecer é através do roubo. Mas por que é que não fazemos isso? Porque o roubo é moralmente errado. A grande questão é: como é que sabemos que o roubo é algo errado? Ou ainda: de onde vem os critérios para a moralidade?

Nós, seres humanos, devemos obedecer antes de tudo às Leis divinas e às leis naturais. Deus gravou em nossos corações sua Lei, e nós temos uma obrigação moral de obedecê-la. O Estado também tem essa mesma obrigação. O nosso sistema de leis civis não tem sua origem em si mesmo, mas responde a uma Lei que lhe é superior, que é a Lei divina e a lei natural.

Toda a tradição de pensamento liberal tem a mesma característica de encarar a lei como algo positivo, relativo, meramente consensual. Ora, mas se lei é somente um consenso entre as pessoas e que varia de acordo com o tempo, nós não podemos dizer que o canibalismo e o sacrifício de crianças, por exemplo, é algo mau, pois isso era um costume nas tribos africanas e indígenas no passado. Baseados em quê nós poderíamos dizer que eles estavam fazendo algo mau? Somente poderemos dizer isso se considerarmos que há uma lei natural a ser respeitada, e que essa lei vale para todo homem, em todo tempo e em todo lugar, de forma universal e indiscriminada.

O grande problema dos liberais é justamente este: achar que liberdade é poder fazer o que quiser. Isso inclui abortar um bebê no útero, matar um idoso que sobrevive com a ajuda de aparelhos, vender os próprios órgãos ou o próprio sangue, destruir o próprio corpo através do uso de drogas e entorpecentes, e até mesmo o “direito” – pasmem – de tirar a própria vida se assim quiser.

Se você acredita que existe uma lei moral que deve ser obedecida, que existe um limite para nossa liberdade, e esse limite é justamente o limite do certo e do errado, então você não é um liberal. O liberal milita pela liberdade plena e absoluta, para fazer o que bem quiser, como se isso fosse um bem em si mesmo. É evidente que isso levaria à completa destruição da sociedade civil. Foi o que aconteceu durante a Revolução Francesa, por exemplo.

Há quem, ouvindo isso, tente argumentar: “mas Deus não nos criou com o livre-arbítrio?”. Quanto a essa afirmação, é bom escutar o que São Paulo nos ensina em sua primeira epístola aos Coríntios que “tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é poermitido, mas não me deixarei escravizar por coisa alguma” (1 Cor 6, 12). Deus nos criou livres, mas para que nós usemos essa liberdade de forma sábia, e não desordenadamente. A liberdade é um dom que Deus nos deu para administrar de forma prudente, e não para fazermos com ela o que bem entendermos. Liberdade não é fazer o que quiser, pois quem faz o que quer, sem se importar com as conseqüências de seus atos, é um irresponsável e é escravo de suas paixões. O homem verdadeiramente livre é o homem que não é escravo de seus próprios desejos, mas os modera de forma sábia e prudente, sem se deixar levar por emoções passageiras, por mais fortes que elas sejam.

Quem é mais virtuoso: o homem que se entrega à bebida ou o que modera seus desejos por ela? É claro que é o segundo. Ele é mais livre, pois não se torna escravo de seu próprio desejo. É senhor de si mesmo e usa a sua liberdade para o bem, de forma sábia.


Os liberais e os libertários geralmente são relativistas morais. Para eles, a moral é uma questão relativa, ou seja, não há uma moral absoluta, que valha para todos em todo tempo e lugar. Esse problema do relativismo moral é a questão mais perigosa da ideologia liberal. Foi este relativismo que adubou a terra em que o socialismo cresceu. Foi o relativismo moral que legitimou qualquer coisa que fosse feita “em nome da revolução”. Da mesma forma a Revolução Francesa também fez horrores “em nome da liberdade”.

A quem deseja um aprofundamento nessa questão, indico fortemente a leitura da Encíclica LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM, do papa Leão XIII. Nenhum texto do Sagrado Magistério é tão importante quanto este para esclarecer a questão do liberalismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você também pode gostar de